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Psiu! Calar para não brigar

  • 22 de jan. de 2019
  • 7 min de leitura

Uma das empreitadas mais difíceis talvez seja a vida a dois. Ter conosco alguém totalmente novo, que carrega sua própria história, sentimentos e peculiaridades. Aceitar todas essas facetas requer esforço, paciência e dedicação. Com o tempo se aprende o quê, quando e como falar. Assim como avaliar a relevância de uma discussão. As palavras, bem como as atitudes e comportamentos, influenciam a vida das pessoas e podem ser cruciais dentro do relacionamento afetivo. Antes, é preciso entender que os cérebros do homem e da mulher trabalham de forma diferente, como explica a neuropsicóloga Carolina Vaz. Uma determinada frase ou um choque de silêncio pode ser interpretado de várias maneiras e representar mil coisas.

Conviver em sociedade, lidar com diferentes pessoas e suas características peculiares implica em saber a hora certa de falar algo ou decidir por determinado comportamento. Se relacionar não pode ser considerado uma tarefa fácil. Aprendemos isso desde criança quando vamos à escola pela primeira vez. É tudo muito novo. Você sai do conforto de casa, do colo da mãe, para ficar aos cuidados da professora e, por fim, aprender a interagir com outras crianças. E o que aprendemos nessa fase reflete em todas as relações que teremos ao longo da vida. Família, amigos, namorado(a), esposo(a)... Uma eterna faculdade de como se adaptar ao outro.

De acordo com Carolina, uma pesquisa feita pela Universidade do Sul da Califórnia diz que, durante uma discussão, o homem deixa de prestar atenção ao detectar expressões de medo ou raiva no rosto da parceira. Reduzindo sua atividade cerebral na região responsável por interpretar o sentimento alheio. Em outras palavras, eles ficam mais “insensíveis”. Já nas mulheres, o que acontece é o oposto: a sensibilidade aumenta. “O que explica a situação clássica da mulher que quer discutir a relação e do homem que só quer sair correndo”, comenta a neuropsicóloga, acrescentando que até essas reações são reflexos da vivência do casal.

Por isso, ela alerta que, antes de fazer um compromisso com outra pessoa, é necessário conhecer a si mesmo. Seus gostos, motivos de irritação, alegria, o que é estímulo a falar e por quais motivos você prefere manter o silêncio em determinadas situações. O missionário Eduardo Guimarães acredita que ficar calado em meio a uma discussão “está ligado a refletir respostas que sejam sábias naquele momento”. Para ele, optar pelo silêncio é saber não ser impulsivo. “Geralmente, eu penso bem antes de trazer uma resposta precipitada”, explica, salientando que faz isso como forma de não fragilizar seu casamento. Thienne Risatto, estudante de biblioteconomia, e o namorado, seguem a mesma estratégia. Se um faz algo que desagrada o outro, eles não conversam sobre o assunto até estarem de “cabeça fria”: “Eu entendo que brigas prejudicam muito o relacionamento, ainda mais por coisas bobas”, justifica.

O estudante de Engenharia Mecatrônica, Luis Henrique Barros, também é adepto do silêncio oportuno. Ele conta que tem dificuldades em não falar e que sempre tem uma reposta ou reação prontas. Mas diz que quando há uma discussão sem propósito ou que ele saiba que pode machucar os sentimentos da namorada. “Em situações em que os dois achavam que tinham razão, eu optei por ficar calado para não brigar mais”, expõe. Thereza Crystina Dutra, enfermeira, existem duas situações principais em que o silêncio é a melhor opção: quando ela percebe que está alterada por causa da raiva ou quando o marido é quem está nervoso. “Se percebo que quem está falando é a raiva ou a situação, opto pelo silêncio até me acalmar e organizar as ideias para depois falar de uma maneira racional”, esclarece. Ela aponta que na segunda situação, quando seu esposo está irritado ou chateado, não falar também ajuda. “Eu espero até ele se acalmar para, quando eu for falar, ele me escutar melhor” conta.

Carolina Vaz, a neuropsicóloga, diz que algumas coisas que não precisam ser ditas em determinadas situações. Ela explica que tomar decisões enquanto se está com os sentimentos e sensações à flor da pele, sejam bons, como alegria, ou ruins, como a raiva, não é interessante. Uma vez que a pessoa não está dentro do próprio eixo. “Emoções fora de controle transformam pessoas espertas em estúpidas. E, por isso, o segredo para fazer boas escolhas está sempre no equilíbrio” afirma Vaz. Para Thereza, esse silêncio representa sabedoria: “Tem hora para você falar e tem hora para ficar calado”, defende. Ela acredita que esperar para falar ou simplesmente não falar nada demonstra maturidade. A enfermeira é mãe de um bebê de um ano e conta que ele expressa suas emoções o tempo todo, porque ele não tem controle de si mesmo. “Mas eu acho que, à medida que você amadurece, aprende quais são as melhores palavras e o momento para falar. Esse silêncio é um silêncio bom”, completa.

Jogo Aberto

E será que numa relação a dois tudo precisa ser conversado? Para Carolina, é muito benéfico quando o casal consegue dialogar abertamente sobre tudo e tomar decisões juntos. Ela explica que isso faz parte da construção da base do relacionamento, assim como a confiança e o respeito. Mas esclarece que cada pessoa tem o seu “mundo particular” e nem tudo o que acontece neste espaço precisa ser compartilhado. Segundo ela, “existem pessoas que são muito inseguras e acreditam que precisam saber de tudo sobre o parceiro, inclusive todo o seu passado. Mantendo para si a ilusão de que ‘se sei de tudo, posso controlar o outro’. Este tipo de comportamento é a pior maneira de estabelecer um relacionamento”, adverte.

A psicóloga afirma que conhecer o passado do outro é um campo minado. Pode ser que a pessoa aceite os erros, acertos e relacionamentos antigos com leveza e compreenda que o passado “passou”. Mas é preciso muito cuidado, porque, de acordo com ela, o efeito contrário também é possível. Vaz explica que compartilhar de muitos detalhes deixe o(a) parceiro(a) ainda mais inseguro(a) com a sensação de que esta parte do passado ainda tem força no presente. “Então é bom ponderar sobre o que vale a pena contar e o que não vale”, complementa.

Eduardo Guimarães e sua esposa Luis Henrique com a namorada

Eduardo concorda que existem fatos que não precisam ser falados. Ele acredita, assim como Carolina disse, que existem muitas diferenças na forma de pensar e reagir do homem e da mulher. Para o missionário é possível, sim, falar sobre tudo. Mas nem sempre é necessário. Já, Thienne, acredita que conversar sobre tudo ajuda a construir uma confiança de que, independente do que aconteça, um não vai esconder nada do outro. Ela já namora há dois anos e diz que pode contar nos dedos de uma mão só os desentendimentos com o namorado. “O relacionamento é mais do que ter um parceiro, é ter alguém que esteja com você em qualquer situação”, afirma corroborada por Luis Henrique. Para ele, ser aberto e transparente faz parte da base de qualquer relação. “Muitas vezes a gente não quer contar certos coisas porque acha que vai magoar a pessoa, mas guardar as coisas para si pode piorar a situação no futuro. Então eu acho que é sempre bom você se abrir e falar sobre tudo para não gerar mágoas”, sustenta.

Silêncio cautelar X Silêncio equilibrado

Thienne afirma que ela e o namorado, quando começam a alterar a voz numa conversa, param no mesmo instante. “É algo que aprendemos em nossas casas. Há um grande desgaste por conta de brigas”, sublinhou, esclarecendo que conversam quando os nervos se acalmam. “Tentamos ser o mais sinceros possível. Principalmente, quando é algo que pode prejudicar nossa relação”, frisa. Thereza Crystina entende que, dentro do seu casamento, o calar do marido vêm para ela como “você exagerou” nas discussões. Ou “quando ele está muito ocupado com algo do trabalho e não pode conversar, o silêncio dele é interpretado como ‘me procure uma outra hora’”. Ela acredita que o silêncio deve vir com um propósito e não simplesmente ignorar o outro por orgulho ou preguiça.

Thienne Risatto e namorado Thereza Crystina com o marido e o filho

A neuropiscóloga explica que, apesar do silêncio “ser uma grande oportunidade para reavaliar e ressignificar as situações, mas se for uma estratégia de fuga, ele se torna um problema maior ainda”. Segundo ela, algumas pessoas se calam para não ter que lidar com o infortúnio e um tempo depois prosseguem agindo como se nada houvesse acontecido. Talvez por uma inabilidade de lidar com a frustração, talvez por medo do outro. “Porém, independente do motivo, a fuga faz com que todos estes sentimentos sejam acumulados, e numa dada hora essa energia vai ter que ser liberada”, considera. É daí que vêm os casos de pessoas que “explodem”, e deixam o outro perplexo, sem saber exatamente o que esta acontecendo. Carolina diz ainda que outras pessoas somatizam isso no corpo que “sinaliza em forma de alterações fisiológicas”. Ou seja, dores, ganho de peso, problemas de pele e de saúde. “A melhor coisa a se fazer é não acumular mágoas e insatisfação. Pois o silêncio prolongado vai tornar mais difícil a resolução dos problemas no futuro”, aconselha.

Luis Henrique crê que o silêncio atrapalha quando, num momento de busca por mudança de atitude ou numa tomada de decisão do casal, um se abstém de dizer o que pensa. Para ele, isso implica em brigas futuras geradas por apenas um tomar a frente das coisas e dominar a relação. Eduardo colabora com seu pensamento, pois considera que o ponto negativo do calar, está em quando alguém se anula e não tem voz ativa para ser transparente, quando gera passividade. “Existem pessoas que em seus relacionamentos ficam só ‘engolindo sapo’, e por dentro estão destruídas. Estão remoendo aquilo o tempo todo”, comenta, frisando que não deve ser assim.

Deste modo, Carolina Vaz explica que cada um vai se expressar de uma maneira. Isso, porque foram criados em contextos diferentes, percebem a vida de forma distinta. Então, é importante descobrir e compreender como os sentimentos e as reações se manifestam em você e no seu parceiro. “Essa percepção permite que você saiba o momento de falar, de ouvir e de se afastar”, avisa. Em sua visão, um fator crucial para lidar com situações em que o silêncio seja negativo, é não desvalorizar nenhum sentimento, seja seu ou do outro. Ela garante que a comunicação é sempre a chave mestra. E, para que essa troca tenha sucesso, a dica é acabar com as famigeradas “indiretas”, porque elas geram várias novas questões no pensamento. Outra idéia é não buscar culpados, mas analisar a situação como um todo, parar com acusações e buscar uma solução. A psicóloga finaliza dando um alerta: “para conseguir lidar com as emoções do outro, primeiro é preciso saber lidar com as suas próprias”.

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